Formação Bíblica com D. Paulo, OSB


Toda Segunda-Feira das 20:00 às 20:45 na Igreja


Maio

Creio na Ressurreição e na Vida Eterna

 

Todos temos o hábito saudável de visitar nossos falecidos no cemitério. E costumamos repetir dois ritos tradicionais, que certamente fizeram parte do cerimonial do velório e da sepultura: acendemos velas e oferecemos flores. Estes símbolos estão presentes nas grandes festividades. É comum cearmos com velas acesas. E em ocasiões solenes, como aniversários, matrimônios e formaturas, há sempre muita variedade de flores.

Portanto, se por um lado, a morte nos entristece, por outro, levamos aos túmulos dos nossos queridos o que, para nós, significa vida, alegria e celebração de grandes eventos. O que há na base de tudo isso, senão a fé numa vida ainda mais feliz, para além de nossa efêmera história humana? A morte deve ser encarada com naturalidade. Ela está sempre presente. Mas dentro de nós haverá sempre um estímulo, mesmo inconsciente, que nos impulsiona a buscar a origem e a consumação da vida precisamente naquele que é seu autor e sua finalidade última: DEUS!

Estamos aqui por desígnio e vontade de Deus. Se saímos daqui pelo mistério da morte, é também porque Deus assim o determinou. Com isso, não estamos dizendo que a morte é obra de Deus. Pelo contrário, Ele mandou seu Filho Jesus aqui na terra para nos livrar dos laços da morte, superar a transitoriedade da vida terrestre e ressuscitar na sua eternidade. Jesus, que tem vida divina e é eterno como o Pai, assumiu nossa natureza humana, morreu e ressuscitou, para que possamos herdar sua vida celestial junto ao Pai. Nossa vida não é uma caminhada para a morte. É uma peregrinação para Deus. Acendemos velas e depositamos flores nos túmulos dos nossos queridos não só para reverenciar sua memória, mas porque cremos na vida nova e perpétua junto a Deus. Esta é a mensagem do apóstolo Paulo: “ninguém vive para si mesmo, e ninguém morre para si mesmo. Se estamos vivos, é para Deus que vivemos. Se morremos, é para Deus que morremos. Vivos ou mortos, pertencemos a Deus”. Depois acrescenta: “Cristo morreu e ressuscitou exatamente para isto, para ser o Senhor dos mortos e dos vivos” (Cf. Rm 14,7-9).


 

Façamos nossa a oração de um monge oriental: “Todas as manhãs, é Cristo ressuscitado que me desperta. O dia pode ter perplexidades e perigos, ao lado de alegrias e triunfos. Mas meu Salvador Ressuscitado está comigo, e comigo vence todas as forças do mal e da morte. Por isso, em todas as manhãs, farei meu ato de fé logo ao levantar-me, entregando o meu dia àquele que carregou as cruzes da minha vida, que por mim morreu crucificado, e que por mim saiu vitorioso do sepulcro. De nada tenho medo, pois o amor de meu Cristo é mais forte do que a morte. Cada manhã, ao levantar-me, renovo minha fé: Creio na ressurreição e na vida eterna! Amém”.

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Na Missa, celebramos a Páscoa de Jesus

 

 

A Santa Celebração Eucarística, que nós chamamos “Missa”, é o ato de agradecimento a Deus, por todos os seus benefícios que Ele realiza para a nossa Redenção e Santificação. A palavra “Eucaristia” significa literalmente “ação de graças”.

Na verdade, pela Santa Eucaristia, o Espírito Santo continua, até o final dos tempos, a perpetuar a libertação e a salvação da humanidade, que Cristo Jesus realizou por nós, de modo especial quando ofereceu seu Corpo e Sangue ao Pai e, ao mesmo tempo, entregou-os a nós para que se tornassem o alimento de vida eterna. A Missa é, portanto, não só uma recordação. É o mesmo oferecimento de Jesus ao Pai no Calvário, e a mesma refeição do seu Corpo e Sangue que Ele instituiu com os discípulos antes de morrer. A Igreja não faz mera repetição. A Igreja celebra o mesmo sacrifício de Jesus, que é superior a todas as ofertas que podemos fazer a Deus. E o Pai nos devolve o mesmo alimento da vida eterna que é o próprio Jesus na comunhão. Este sacrifício tem valor infinito. É a Páscoa de Jesus, que sempre continua presente em nossa vida.

É necessário, portanto, participar da Ceia Eucarística, para que possamos colher os frutos da Redenção de Jesus, que pela sua Paixão, Morte e Ressurreição, salva toda a humanidade. Não pode haver autêntica vida de fé sem esta celebração do Mistério Pascal de Cristo. Nesta Páscoa de Jesus assumamos este compromisso, e estejamos sempre presentes à Santa Missa dominical.

Junho

O Espírito nos faz testemunhas de Cristo na Igreja

 

 

Mais um Pentecostes na Igreja! Mais uma vez o Espírito Santo será derramado no coração dos fiéis. Cuidado! Estas expressões são redundantes. Existe apenas um Pentecostes, que se realiza na aurora da Igreja, logo após a Ascensão do Senhor. A partir de então, na Igreja, até a consumação dos séculos, tudo é um só e o mesmo Pentecostes. Tudo é obra do Espírito que se derrama sobre os apóstolos no reunidos no Cenáculo. Por sua vez os apóstolos e seus sucessores administrarão o Batismo, e o Santo Espírito continuará a suscitar discípulos e testemunhas de Cristo Ressuscitado. Sua ação é contínua a ininterrupta.

Com efeito, é a própria Escritura que no-lo atesta: “Ninguém pode dizer: ‘Jesus é Senhor’ a não ser no Espírito Santo” (1Cor 12,3). “Deus enviou a nossos corações o Espírito de seu Filho que clama: Abbá, Pai!” (Gl 4,6).

A fé que temos é obra do Espírito Santo. E para estarmos em contato com Cristo, é preciso primeiro ter sido tocado pelo Espírito Santo. Por isso, o próprio Senhor nos disse: “É bom para vós que eu parta. Se eu não for, não virá até vós o Defensor. Mas se eu me for, eu vo-lo mandarei” (Jo 16,7).

É o Espírito Santo que, por sua graça, desperta na nossa fé o conhecimento do Pai e daquele que Ele enviou, Jesus Cristo (Cf. Catecismo da Igreja Católica, CIC 683-684).

Assim como o Espírito foi derramado sobre os apóstolos, e a partir daquele dia a Igreja iniciou sua atividade missionária e evangelizadora, é muito importante que o conhecimento e a experiência do Espírito Santo se realizem na Igreja, na comunhão viva da fé dos apóstolos. Onde e como viver esta misteriosa comunhão de amor, a própria Igreja nos ensinará:

  1. Nas Escrituras que o Espírito Santo inspirou. Leiamos e honremos a Palavra de Deus, especialmente a Palavra proclamada na Liturgia da Igreja, na Santa Missa;
  2. Na Tradição, da qual os Padres são as testemunhas sempre atuais, intérpretes dos divinos ensinamentos de Cristo e dos Apóstolos;
  3. No Magistério da Igreja, ao qual o Espírito Santo prometeu assistência (Cf. Mt 16,17-19; 18,18; CIC 77. 88. 2034);
  4. Nos Sacramentos, em sua Liturgia, por meio das palavras e dos símbolos, em que o Espírito Santo nos coloca em comunhão com Cristo;
  5. Na oração, na qual o próprio Espírito intercede por nós, de modo especial na oração autorizada da Igreja;
  6. Nos carismas e nos ministérios, por meio dos quais a Igreja é edificada;
  7. Nos sinais de vida apostólica e missionária, nos trabalhos pastorais;
  8. No testemunho dos santos, no qual o Espírito manifesta sua santidade e continua a obra da salvação (para todos estes itens, Cf. CIC 687-688).

A Igreja é, portanto, a segurança de uma saudável e verdadeira vida no Espírito. Por isso, desejar uma vida cheia do Espírito de Deus, é inserir na pastoral orgânica e nos movimentos eclesiais. Pois é na Igreja e na comunhão da caridade de todos que seremos, no Espírito Santo, testemunhas do Cristo Ressuscitado.

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Formação Permanente

 

Em nossas assembleias diocesanas, regionais, foraniais e paroquiais, sempre se destaca o pedido de priorizar a formação permanente. De modo especial, nossos leigos e agentes de pastoral sentem a necessidade de conhecer melhor a doutrina da Igreja, o Ano Litúrgico, o Catecismo da Igreja Católica e a Sagrada Escritura. Nossos pastores de almas, sacerdotes e diáconos, buscam também uma constante reciclagem espiritual e teológica, para poder servir melhor o povo de Deus.

Aqui na comunidade paroquial, respondendo a estes anseios de aperfeiçoamento na fé, instituímos desde o início do presente ano de 2017 a Escola de Formação Bíblica, todas as segundas-feiras das 20:00h às 21:00 horas. Paralelamente, no mesmo dia e horário, mantemos nossa preparação para a Iniciação Cristã dos adultos. Já nas quintas-feiras, às 20:00h, sob responsabilidade da própria Diocese, continuamos o programa de Formação dos Multiplicadores da Palavra, este ano explicitamente sobre o Evangelho de São Lucas.


 

Para participar destes programas de formação, não há nenhum pré-requisito. Todos são chamados. Os participantes atestam a grande importância dos temas que estão sendo tratados. Cresça também você no conhecimento e no testemunho da sua fé cristã, e junte-se a nós!

Julho

Novena em Honra de São Bento

 

INVITATÓRIO

Nove dias cantem todos os louvores de São Bento!
Para ele é que volvemos nosso olhar e pensamento.

Escuta, ó filho: é o Pai que fala; à voz de Deus o homem se cala.

Deixa Roma corrompida, só da ama acompanhado:
porém foge a toda fama, vendo o vaso restaurado.

Escuta, ó filho: é o Pai que fala; à voz de Deus o homem se cala.

Só com Deus vive três anos escondido numa gruta,
vem-lhe à mente bela jovem que ele afasta em dura luta.

Escuta, ó filho: é o Pai que fala; à voz de Deus o homem se cala.

Camponeses o descobrem, e lhes fala do Evangelho:
anuncia o novo mundo, que floresce sobre o velho.

Escuta, ó filho: é o Pai que fala; à voz de Deus o homem se cala.

Deixa um dia Subiaco, já por monges escoltado:
vão tornar Montecassino um celeiro abençoado.

Escuta, ó filho: é o Pai que fala; à voz de Deus o homem se cala.

Elabora a sua Regra, onde o pai tempera o mestre;
vida angélica prescreve, irrompendo na terrestre.

Escuta, ó filho: é o Pai que fala; à voz de Deus o homem se cala.

Escolástica ele encanta ao falar da eternidade;
ela então, para retê-lo, pede a Deu a tempestade.

Escuta, ó filho: é o Pai que fala; à voz de Deus o homem se cala.

Quando a morte se aproxima, para a igreja é transportado,
e, de pé, morre cantando por seus filhos coroado.

Escuta, ó filho: é o Pai que fala; à voz de Deus o homem se cala.

Eis que na glória intercede por nós, que ainda caminhamos
e, na escada da humildade, ao descer, nos elevamos.

Escuta, ó filho: é o Pai que fala; à voz de Deus o homem se cala.


 
  • PRIMEIRO DIA: A OBEDIÊNCIA (clique para abrir)

    Deus, vinde em nosso auxílio.
    R. Senhor, socorrei-nos e salvai-nos.
    Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo.
    R. Como era no princípio, agora e sempre. Amém.

    Invitatório: Leitura do livro do Gênesis ( 12, 1 - 4)

    Disse o Senhor a Abraão: "Sai da tua terra, do meio dos teus parentes e da casa do teu pai, e vem para a terra que te vou mostrar. Farei de ti um grande povo, e te abençoarei e engrandecerei teu nome, e tu serás Bendito. Eu abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te maldisserem. Em ti serão abençoadas todas as nações da terra". E Abraão partiu, como o Senhor lhe ordenara.

    Meditação

    Tendo nascido ainda no Império Romano, há 1.500 anos, São Bento viveu mais perto do tempo de Cristo que do nosso. Foi portanto um daqueles santos chamados "Pais da Igreja", por terem contribuído de modo extraordinário para a sua formação e crescimento. A contribuição de Bento veio sobretudo por meio de seus monges, para os quais escreveu sua famosa Regra, e dos quais se tornou o Patriarca. À semelhança de Abraão no Antigo Testamento, tornou-se na Igreja o chefe de um grande povo, isto é, de inumeráveis cristãos que se consagram a viver mais plenamente o batismo.
    A vida de São Bento nos foi narrada sob a forma de Diálogos por São Gregório Magno, que abraçara a vida monástica antes de tornar-se Papa e informou-se junto a pessoas que haviam conhecido o Santo.
    Enviado pelos pais a Roma a fim de prosseguir os estudos, o jovem, que já ouvia em seu coração a voz de um outro Pai, que o chamava todo para si, não quis permanecer em cidade tão corrupta e refugiou-se num lugarejo chamado Enfide. Certo dia, vendo em prantos a velha ama que o acompanhara e havia quebrado uma vasilha, tomou o jovem os cacos entre as mãos, pôs-se a rezar, e estes se juntaram de novo. O vaso milagrosamente recuperado foi suspenso à porta da igreja, para a alegria e admiração de todo o povo.
    O que nos pode sugerir este primeiro milagre de São Bento, senão o poder da oração de um coração obediente e as grandes maravilhas realizadas, por meio dela, na Igreja e no mundo? O Império Romano era como um belo vaso que se partira, mais corroído pela decadência moral que pelos ataques dos povos ainda bárbaros, que reduziam tudo a ruínas. Bento não fundou, para combatê-los, exércitos poderosos, mas semeou por toda a Europa os seus mosteiros, que eram simplesmente casas de oração e escolas de serviço divino. Em breve os bárbaros, cativados pelas mansidão e bondade dos monges, começaram a aprender o Evangelho e o cultivo da terra, fixando-se em torno dos mosteiros, de onde surgiram tantas cidades, onde se ergueram depois as famosas catedrais. Foi por isso que o papa Paulo VI proclamou São Bento, já Patriarca dos Monges, "Padroeiro de toda a Europa".
    Vivemos também, caros irmãos, num mundo partido. Divisões e lutas entre as nações, divisões e lutas entre as diversas classes, divisões e lutas nas próprias famílias, entre marido e mulher, pais e filhos. Divisão e luta dentro de nós mesmos, onde, como já dizia o apóstolo Paulo, o homem velho se insurge contra o novo, a carne contra o espírito. Por que não recorremos, como São Bento, à oração confiante para conquistar a paz e a unidade, unindo o que está quebrado e partido?

    Oração conclusiva

    Ó Deus, que nos ensinastes pelo abade São Bento não sermos atendidos pelas muitas palavras, mas pela pureza de um coração filial, purificai os nossos corações para que sejamos ouvidos, ao vos pedirmos hoje a paz e a união para um mundo dividido e aflito. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho na unidade do Espírito Santo.

  • SEGUNDO DIA: A HUMILDADE (clique para abrir)

    Leitura da segunda epístola do apóstolo Pedro (5, 5 - 7)
    Irmãos, revesti-vos todos de humildade em vossas mútuas relações, porque Deus resiste aos orgulhosos, mas dá a sua graça aos humildes. Humilhai-vos, pois, sob a poderosa mão de Deus, para que ele vos levante no momento exato. Descarregai-vos nele de toda inquietação, porque ele cuida de vós.

    Meditação

    O primeiro milagre de São Bento, ainda adolescente, foi restaurar, com sua oração, o vaso quebrado. Como a sugerir-nos o mesmo recurso para obtermos a união das nações, das classes, das famílias e dos lares, sem falar em nossa disciplina e unidade interior. Ora, a oração é um fruto da humildade, que nos leva a reconhecer que nada podemos e somos sem o auxílio e a graça de Deus, que criou todas as coisas e as mantém na existência, e que tornou fecundo o amor de nossos pais, ao criar, como um reflexo de seu espírito, a alma de cada um.
    Ora, que São Bento deu provas de humildade, nós o vemos não apenas por ter recorrido à oração quando verificou que ele próprio nada podia fazer pela ama, como também pelo seu procedimento quando suspenderam à porta da igreja o vaso recuperado. Não querendo que as atenções se voltassem para ele, como o autor de um prodígio que atribuía à misericórdia de Deus e não a seus próprios méritos, deixa a cidade e a velha ama na mesma noite, para refugiar-se em lugar deserto como muitos outros já faziam. Escondido numa gruta longínqua chamada Subiaco, vive ali três anos seguidos, somente sob o olhar de Deus e inteiramente ignorado dos homens, a não ser de outro monge, chamado Romano, que lhe dera o hábito monástico e, morando mais em cima, fazia descer até ele, num cestinho amarrado a uma corda, o pão que o sustentava.
    Por isso compreendemos que São Bento tenha sido chamado o Doutor da Humildade, comparada, em sua Regra, a uma escada de doze degraus, que devemos construir com nossos atos nesta vida presente. E, como na escada que Jacó viu em sonhos e chegava até Deus, havia anjos que desciam e subiam, também descemos cada vez que nos deixamos levar pelo orgulho, como subimos sempre mais se nos tornamos humildes.
    O que nos pode ensinar a humildade de São Bento? Num mundo em que todos buscam, como os fariseus, os primeiros lugares, procuremos lembrar que não temos direito a coisa alguma, pois tudo que somos e fazemos de bom vem de Deus, que nos criou e nos concede a sua graça, enquanto só fazemos o mal se o esquecemos e nos afastamos de suas leis. Se vemos tanta desgraça e tanto mal no mundo, isto decorre de não querermos subir a escada da humildade, cujo primeiro degrau, como lembra São Bento, é justamente o temor de Deus. O último degrau já nos introduz na caridade perfeita, quando agimos apenas por amor, esquecidos de castigo ou recompensa. Por que não procurarmos ser humildes, comparando-nos não tanto às outras pessoas, mas sobretudo a Deus, que estará sempre e infinitamente acima de todos, mas tão próximo de nós em seu amor?

    Oração conclusiva

    Ó Deus, que nos ensinaste pelo abade São Bento a nos dirigirmos com toda a reverência ao Senhor do Universo, dai-nos reconhecer sempre, como o publicano do Evangelho, que não somos dignos de levantar os olhos para o céu, mas podemos confiar em vosso amor de Pai. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

  • TERCEIRO DIA: A CARIDADE (clique para abrir)

    Leitura da primeira epístola do apóstolo João (4, 7 - 9)
    Caríssimos, amemos uns aos outros, porque o amor é de Deus. E todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. Nisto se manifestou o amor de Deus entre nós: Deus enviou o seu Filho unigênito ao mundo, para que vivamos por ele.
    Meditação

    Muitos imaginam que caridade seja sobretudo a esmola que se dá ao pobre ou a paciência em relação ao importuno. Ora, caridade é uma palavra especial para significar não qualquer amor, mas o amor que devemos a Deus, que é a própria bondade e a própria beleza. Mas justamente o amor a Deus é que faz com que amemos todas as coisas que foram criadas e são mantidas por ele na existência, sobretudo os homens, sua imagem e semelhança.
    Assim é que, mesmo odiando o pecado, que é a negação de Deus, devemos amar o pecador, que é filho de Deus. "Viste o irmão, viste o Senhor", dizia Santo Agostinho. Por isso o amor a Deus, longe de afastar-nos do próximo, faz com que nos voltemos para ele e o amemos, mesmo que não mereça o nosso amor.
    Bento, que se afasta dos homens para fugir aos perigos de uma capital decadente e aos elogios dos habitantes de Enfide, volta, após três anos de vida oculta, ao convívio humano. Seguiu de certo modo o exemplo de Jesus, que viveu trinta anos a vida oculta de Nazaré, antes de dar início à sua missão.
    Sem dúvida esse plano de voltar aos homens, não estava no pensamento de Bento, mas é o próprio Deus que o leva a isso, ao vê-lo preparado pelo silêncio e a oração, que continuarão a ocupar a maior parte de seus dias. Primeiro são pastores que o descobrem, como os de Belém a Jesus, na gruta de Subiaco. O homem que haviam tomado por uma fera e pretendiam matar, põe-se a pregar-lhes o Evangelho, então quase desconhecido pelos pagãos, isto é, os que moravam nos pagos ou pequenas aldeias. Começa então a tradição monástica da generosa acolhida a hóspedes e peregrinos, nos quais se recebe o próprio Cristo, que, como lembra São Bento, nos dirá um dia: "Eu fui hóspede, e me recebeste". Como começa igualmente a tradição do ensino, que não será em breve apenas o das verdades da fé, mas também o das artes e ciências, que farão dos mosteiros, embora não o visem diretamente, grandes focos de civilização e cultura.
    O que nos pode ensinar a caridade de São Bento? Não tenhamos medo de dar a Deus o primeiro lugar em nosso amor; pois só assim serviremos realmente aos nossos parentes, ao nosso próximo, ao nosso país e a toda humanidade.

    Oração conclusiva

    Ó Deus, que fizestes o abade São Bento preclaro mestre na escola do vosso serviço, concedei que, nada preferindo ao vosso amor, corramos de coração dilatado no caminho dos vossos mandamentos. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho na unidade do Espírito Santo.

  • QUARTO DIA: A DISCIPLINA (clique para abrir)

    Leitura da primeira epístola de São Pedro (5, 8 - 10)
    Irmãos, sede sóbrios e vigiai. Pois vosso adversário, o demônio, anda em torno de nós como um leão que ruge, procurando o que devorar. Deveis resistir firmes na fé, sabendo que a comunidade de vossos irmãos, espalhada pelo mundo, suporta iguais sofrimentos. Quando houverdes sofrido algum tempo, o Deus de toda graça, que vos chamou em Jesus Cristo, vos dará forças e tornará inabaláveis.
    Meditação

    Quando São Bento ainda se encontrava em Subiaco e já começava a irradiar-se a sua fama, irritou-se o Demônio ao ver tantos camponeses abandonarem os falsos deuses para servir ao verdadeiro, e imaginou afastar o moço, ainda tão jovem, da vida que pretendia seguir.
    Fez então surgir em sua lembrança uma jovem de grande beleza que ele entrevira outrora, o lançou em grande perturbação. Poder-se-ia tratar de uma tentação comum, a que todos tem o dever de resistir. Mas parecia tratar-se, naquele caso, de algo mais grave ainda. Pois São Gregório declara que o moço já pensava em deixar o deserto... Sem dúvida, podia mesmo sem pecado, ir ao encontro da jovem e desposá-la, uma vez que Deus abençoa no matrimônio a união do homem e da mulher.
    Mas seria, agora, renunciar ao chamado especial que o levara a entregar-se inteiramente a Deus. Aquele mesmo que o chamara veio, pois, em seu auxílio e não o deixou cair na tentação. Impelido pela graça divina, o moço despiu-se imediatamente e pôs-se a rolar num espinheiro próximo, até que a dor afastasse a imagem do prazer.
    Tendo sabido preservar o vaso de sua alma, que não se partiu como o da ama, nunca mais experimentou Bento tentações semelhantes. E logo outros vieram procurá-lo, a fim de serem por ele guardados e protegidos em sua vocação, consagrando-se inteiramente a Deus.
    Vemos assim como Bento, que já procurava dominar-se pelo jejum, era capaz de recorrer a métodos violentos em caso de perigo. Consta que Francisco de Assis, visitando séculos depois a gruta de Subiaco, teria semeado no lugar da tentação de Bento as roseiras que lá se encontram em vez dos espinheiros. Que nos ensina essa atitude de São Bento? Saber lançar mão das mortificações necessárias, seja para não cometer qualquer pecado, seja para não renunciarmos a vocação mais alta. Peçamos a Deus que, pelo exemplo e a intercessão de São Bento, saibamos dominar o nosso corpo, não nos tornando escravos do Demônio, mas soldados fiéis, que sabem lutar pelo Rei verdadeiro.

    Oração conclusiva

    Venham em nosso socorro, ó Deus todo poderoso, o exemplo e a intercessão de São Bento, que hoje reunidos celebramos, a fim de que, renunciando às paixões desordenadas, mereçamos participar da herança que a paixão de Cristo nos conquistou. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

  • QUINTO DIA: A PACIÊNCIA (clique para abrir)

    Leitura da epístola de São Paulo aos cristãos de Colossos (3, 12 - 15)
    Vós, eleitos de Deus, seus santos e bem amados, revesti-vos de sentimentos de misericórdia, boa vontade, humildade, mansidão e paciência, suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente, se um tiver contra o outro motivo de queixa. O Senhor perdoou: fazei o mesmo. Portanto, tende acima de tudo a caridade, que é o laço da perfeição. E a paz de Cristo reinará em vossos corações, esta paz à qual fostes chamados num só corpo. Vivei em ação de graças.
    Meditação

    Embora tenha vencido pela graça de Deus a tentação que o assaltou, Bento deve ter refletido em como era difícil enfrentar sozinho o demônio, sem o alimento do corpo de Cristo na Eucaristia e sem o convívio com os outros membros do seu corpo místico, que é a Igreja, na qual ingressamos pelo batismo. Isto o terá levado a reconhecer, como o faz em sua Regra, as vantagens da vida em comum, desde que orientadas por uma Regra e um Abade. Por isso decidiu-se em atender às instâncias dos monges de Vicovaro que o desejavam ter por mestre e guia, ou melhor, por pai, pois tal é o significado da palavra abade e sua função num mosteiro. Acontece porém que tais monges, acostumados a uma vida não condizente com o estado de perfeição que haviam abraçado, logo se irritaram contra Bento. Um dia, quando lhe apresentaram o vinho à refeição, ao contrário do que acontecera com o vaso da ama, estilhaçou-se o copo em pedaços: o veneno que trazia a morte não pudera suportar o sinal da vida, a cruz com que Bento o abençoara.
    Voltou pois Bento à sua gruta de Subiaco, mas sem revolta e amargor. Pois, dando provas de uma virtude, que será a característica de seus filhos ao longo dos séculos e que irá transparecer até nos mais singelos trabalhos, a "paciência beneditina", consente em acolher e orientar novos monges que acorrem a ele, e até mesmo jovens e adolescentes trazidos pelos pais, como foi o caso de Mauro e Plácido, nobres romanos, mas tratados com a mesma solicitude que os rudes bárbaros que se convertiam e desejavam colocar-se também naquela escola de servir a Deus. Em breve Bento constrói com eles doze pequenos mosteiros, colocando em cada um doze monges sob a direção de um abade. Para melhor orientar a todos, escreve então a Regra que, por seu equilíbrio e amplitude, viria suplantar as que já existiam, como a de Santo Agostinho ou São Basílio, impondo-se em todo o Ocidente. Não exigia, em seu conhecimento da fragilidade humana, nada de muito pesado; mas estabelecia pacientemente, todo um quadro de leitura e oração, trabalho e repouso, alimentação e vestuário, que favorecesse a vida em comum e a busca de Deus.
    Aprendamos de São Bento a paciência. Não só não recua ante o primeiro fracasso, mas desce depois em sua Regra, aos detalhes da vida quotidiana, sempre lembrando porém que deve adaptar-se ao temperamento de cada um, se deseja, como Bom Pastor, ganhar as almas para Deus.

    Oração conclusiva

    Que vossa graça, ó Deus, incline os nossos corações a ouvirem os preceitos de São Bento, que, por sua vida e doutrina nos recomendou de modo admirável, a aceitação da vontade divina, a paciência com os irmãos e o perdão das ofensas. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

  • SEXTO DIA: A ESTABILIDADE (clique para abrir)

    Leitura do Livro dos Atos dos Apóstolos (2, 42 - 45)
    Eles se mostravam assíduos aos ensinamentos dos apóstolos, fiéis à comunhão fraterna, à fração do pão e às orações. O temor se apoderava de todos os espíritos, pois numerosos eram os prodígios e milagres realizados pelos apóstolos. Todos os fiéis punham em comum todas as coisas: vendiam suas propriedades e seus bens, e o preço era repartido entre todos, segundo as necessidades de cada um.
    Meditação

    Dir-se-ia que Bento, já perto dos cinquenta anos e tendo passado trinta e cinco em Subiaco, veria ali o fim de seus dias, cercado pela veneração dos discípulos e fiéis. Deus porém, que escreve direito por linhas tortas, permitiu que um sacerdote vizinho, levado pela inveja, se pusesse a persegui-lo na pessoa de seus discípulos. Resolve, pois, levando consigo alguns monges, entre os quais Mauro e Plácido, dirigir-se ao hoje famoso Monte Cassino, encruzilhada de vários caminhos; ali, não mais escondido pelas rochas de Subiaco, brilhará aos olhos de todos como a luz no candelabro. Monte Cassino será para ele como o Monte Sinai, pois terá então escrito ou pelo menos concluído a sua Regra, tão importante para os monges como o Decálogo para o povo de Deus. E terá sido talvez Monte Cassino, rochedo imóvel dominando a planície, que sugeriu a Bento, que acabava de vir de outro lugar, inserir em sua Regra um voto hoje pouco conhecido, mas tipicamente beneditino: o voto da estabilidade, isto é, a permanência para toda a vida na mesma comunidade ou mosteiro. O que é muito compreensível quando nos lembramos que Bento reuniu os monge numa família, em torno do mesmo pai, o abade. Ora, a família se caracteriza pelo constante convívio de seus membros, até algum deles sentir-se chamado a formar um novo grupo. Mais tarde São Domingos, São Francisco, e os fundadores de novas congregações deixarão de lado aquele voto; pois, em vez de constituírem antes de tudo uma comunidade de oração, desejarão anunciar o Evangelho por toda parte, pela palavra e o exemplo. Enquanto isto os monges, sempre ligados ao mesmo mosteiro, darão melhor uma idéia do que deva ser toda a Igreja, como a cidade sobre o monte. A esse voto de estabilidade junta o monge dois outros, que são a obediência ao abade e a vida segundo a Regra, não fazendo, de modo explícito, os votos de pobreza e castidade.
    Sem dúvida constitui a estabilidade preconizada por São Bento uma das maiores necessidades do mundo de hoje. Os homens que devoram distâncias com seus automóveis, navios, aviões e foguetes, já não sabem parar e calar para dialogar com aqueles que os cercam e sobretudo com a sua própria alma e com a "alma das almas", que é Deus. Bombardeados por anúncios, notícias, publicidade, e a última marca de cigarro ou último modelo de carro, e pelas solicitações do sexo ou do dinheiro, todo compromisso lhes parece monótono. E já não tem coragem de assumir ou conservar os encargos de uma família ou da vida religiosa e sacerdotal. Que São Bento nos dê a graça de compreendermos a necessidade, maior que nunca, de nos apegarmos ao essencial e eterno, de não nos deixarmos levar pelo turbilhão, de nos convencermos de que o homem que mais se julga livre é na verdade o escravo de um punhado de fantasias, pois só a verdade é que liberta.

    Oração conclusiva

    Ó Deus, que reunistes em torno do patriarca São Bento, aceso como um facho em Monte Cassino a devoção de tantos monges e tantos povos, dai-nos também, só em vós repousando, os dons da unidade e da paz. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

  • SÉTIMO DIA: A PALAVRA DE DEUS (clique para abrir)

    Leitura da epístola do apóstolo Paulo aos cristãos de Colossos (13, 16 - 17)
    Que a palavra de Cristo habite em vós com abundância. Instruí-vos com toda a sabedoria por exortações recíprocas. Cantai a Deus, de todo o coração, vosso reconhecimento, por meio de salmos, hinos e cânticos inspirados. E tudo o que possais dizer ou fazer, seja sempre em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai.
    Meditação

    Se nos perguntarmos onde São Bento hauriu a sabedoria que lhe impregnou a vida, a ponto de parecer repleto do espírito de todos os justos, responderemos sem sombra de dúvida: nas Sagradas Escrituras. Não só recomenda a leitura do Antigo e do Novo Testamento, como também os comentários que sobre eles escreveram os autores de boa doutrina. Os monges não devem apenas manusear frequentemente a Escritura, sobretudo no tempo da Quaresma, como devem ouvir-lhe a leitura durante as refeições e antes de se deitarem. O apreço de Bento pela Palavra de Deus é tão grande, que não só escreveu uma Regra com tantos capítulos quantos são os livros da Escritura, como baseia tudo o que diz e ensina em citações da Bíblia. A oração comunitária que estabelece para os monges consta sobretudo dos poemas que constituem o livro dos Salmos, sempre entremeados com leituras mais breves ou longas de outros livros bíblicos. E, assim como prescreve que a mente do que reza deve concordar com aquilo que está recitando, também prescreve que a vida do monge esteja em harmonia com sua oração e sua mente. E, como dizia São Gregório que Bento não poderia ter vivido de modo diverso do que ensinava, também o monge não deve viver de modo diverso do que reza. A Sagrada Escritura torna-se, para o monge, uma escola de vida, e a Palavra de Deus o transfigura.
    Assim o silêncio do mosteiro, sobretudo à noite, deixa de ser uma simples ausência de conversas e ruídos, para ser o espaço onde ecoa a palavra de Deus, e a serena expectativa das inspirações do Espírito Santo, que muitas vezes, como lembra São Bento, fala até nos mais jovens.
    Que São Bento nos ensine também a amar e a viver a Sagrada Escritura. Mas para isto é indispensável abrirmos todos os dias a nossa Bíblia para nos entregarmos, ao menos por alguns minutos, àquela leitura divina, em que o monge emprega tão grande parte de seu tempo, e até mesmo das horas de repouso. Leiamos ao menos os Evangelhos, que nos põem em contato direto com a vida de Cristo, bem como os Atos dos Apóstolos, que nos dão uma bela e encantadora idéia da vida da Igreja. Leiamos algumas das epístolas, tão ricas de ensinamentos, sem falar nos principais livros do Antigo Testamento, onde encontramos, em sombras e profecias, tudo o que se realiza em plenitude com a vinda do Messias prometido. Falando da Escritura, pergunta São Bento qual a página do Antigo ou do Novo Testamento que não constitua para nós retíssima norma de vida.

    Oração conclusiva

    Ó Deus, que nos quisestes falar pelos profetas e, na plenitude dos tempos por teu Filho, dai-nos ouvir de tal modo as sagradas leituras, que se tornem para nós norma de vida e abrem em louvor os nossos lábios. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

  • OITAVO DIA: O TRABALHO (clique para abrir)

    Leitura da segunda epístola do apóstolo Paulo aos cristãos de Tessalônica (3, 10 - 13)
    Quando estávamos entre vós vos demos esta regra: quem não quer trabalhar, não tem o direito de comer. Ora, ouvimos dizer que há entre vós alguns que vivem ociosos, jamais trabalhando e se metendo em tudo. A esses exortamos e determinamos em nosso Senhor Jesus Cristo a trabalhar tranquilos, comendo o pão que houverem ganho com seu próprio esforço. Quanto a vós, irmãos, não deveis cessar de fazer o bem.
    Meditação

    Não foi sem razão que se consubstanciou a vida beneditina no lema: "Ora et Labora" "Reza e trabalha". Quer São Bento, entremeando-os, como faz, na vida do monge, que a oração se torne trabalho e o trabalho oração. O trabalho, que seria para o homem no Paraíso algo de extremamente agradável, no qual se sentiria realizado como operário e artista, tornou-se, após o pecado, uma penalidade: "Ganharás o teu pão com o suor do teu rosto". Esse aspecto austero do trabalho, São Bento o revela quando fala no "duro trabalho da obediência pelo qual voltamos a Deus, se quem pela desobediência nos afastáramos". Como chamará também trabalho ao "ofício divino", o "opus Dei", principal atividade do monge e do mosteiro. Assim, ninguém imagine São Bento um romântico, que não reconheça, por exemplo, o caráter mortificante de uma oração por vezes longa, em horas marcadas, onde as vozes e os gestos devem ajustar-se, e cujos textos não correspondem às vezes ao estado de espírito de cada um. O ofício divino, a obediência e os opróbrios são também, ao lado do trabalho, um trabalho de penitência e mortificação, caminho de volta para Deus.
    Mas Bento, que sabe ver o lado jubiloso do ofício divino, que se manifesta de modo tão impressionante no canto gregoriano, revela-nos também o lado entusiasmante do trabalho. Assim, quando fala dos utensílios do mosteiro e recomenda o máximo cuidado com eles, não parece motivo sobretudo por um critério de economia ou pobreza, mas pela consideração de que o monge transfigura tudo aquilo que usa, vislumbrante até nos mais humildes objetos uma certa presença de Deus, criador de todas as coisas. Ao referir-se, portanto, às ferramentas e utensílios do mosteiro, como os baldes e as vassouras, compara-os, e acha que devemos fazer o mesmo, aos vasos sagrados do altar. Foi sem dúvida esta contemplação de uma certa presença de Deus num simples vaso que o fez restaurar outrora, em oração, o vaso partido da ama.
    Longe de São Bento, a distorção de considerar o trabalho apenas sob o aspecto econômico e utilitário. Quando um artista se envaidece por fazer mais e melhor, determina que lhe seja retirado o trabalho que o leva à soberba e atribuída outra tarefa que não lhe prejudique a humildade.
    Que São Bento nos ensine o amor e a dedicação ao trabalho, ainda que monótono ou injustamente remunerado. Que a dona de casa saiba ver nos seus obscuros e despercebidos afazeres um serviço divino, pois é a Deus que serve no marido e nos filhos, de agulha entre os dedos ou espanador na mão. E que os responsáveis pelo pagamento dos que trabalham lembrem-se que não devem dar-lhes apenas o que merecem, mas o que verdadeiramente precisam para viver como criaturas humanas e filhos de Deus.

    Oração conclusiva

    Ó Deus, a quem servimos até no trabalho manual, vendo nas ferramentas e utensílios vasos sagrados do altar, e no próximo, o Cristo que adoramos, dai-nos também cumprir com todo o amor o ofício de vos louvarmos e bendizer-vos, para que em tudo sejais glorificado. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

  • NONO DIA: A VIDA ETERNA (clique para abrir)

    Leitura da epístola do apóstolo Paulo aos cristãos de Colossos (3, 1 - 4)
    Porque pelo batismo ressuscitastes com o Cristo, buscai as coisas do alto: é lá que se encontra o Cristo, sentado à direta de Deus. Buscai as coisas do alto, não as da terra. Pois, pelo batismo, estais mortos, e vossa vida está escondida em Deus, com o Cristo. O Cristo é vossa vida. Quando ele aparecer, no grande dia, então vós também aparecereis com ele na glória.
    Meditação

    Certa noite Bento, enquanto os irmãos dormiam, permaneceu à janela da torre a invocar o Deus todo poderoso. De repente, no meio da maior escuridão, viu descer do céu uma luz que dissipava as trevas; e eis que o mundo inteiro se condensou a seus olhos num só raio de sol. Este episódio, que as palavras, como dizia São Paulo, não podem traduzir, foi logo narrado por ele a um abade que fora visitá-lo e dormia num quarto logo em baixo. Experiências extraordinárias como esta, ainda que intraduzíveis, faziam-no falar com tanta profundidade das coisas celestes, que não só aquele abade, mas também uma abadessa, sua irmã Escolástica, vinha vê-lo todos os anos. Encontravam-se numa casa que ficava entre os dois mosteiros. Certa vez Escolástica, que era talvez sua irmã gêmea, mas em tudo um só coração com ele, pediu-lhe que aquela tarde não voltasse ao seu mosteiro, mas passasse a noite inteira a lhe falar do céu. Tendo o irmão respondido que não podia fazer tal coisa, pôs-se ela a rezar; no mesmo instante desabou tal tempestade que Bento, a contragosto, viu-se obrigado a passar com ela a noite toda. Três dias depois, compreendeu ele a insistência da irmã, pois viu passar por sua janela uma pomba a perder-se no azul... Mandou ele buscar o corpo de Escolástica e colocou-o no sepulcro que preparava para si, pois, "não deviam separar-se na morte os que haviam sido em vida um só coração".
    Esta breve cena, narrada por São Gregório, onde assistimos ao encontro de Bento e Escolástica, seria perpetuada até hoje na suave amizade que une monges e monjas de São Bento na sua caminhada em comum para a vida eterna e definitiva. Bento e Escolástica encontram-se sepultados na cripta da monumental igreja do Mosteiro de Monte Cassino, sem dúvida o mais importante santuário da família beneditina. A esta família juntam-se também os oblatos e oblatas que, embora permanecendo no mundo, se esforçam por viver o mais possível seguindo o espírito de São Bento.
    Sabemos acaso, como Escolástica, nutrir em nós a sede pelas coisas de Deus? Sabemos acaso, como Bento, falar aos homens dos tesouros invisíveis que nos aguardam no céu? De tal modo já pusera em Deus o seu coração, que, ao sentir que a sua morte se aproxima, não se amedronta, mas se alegra. Pede a seus monges que o levem até a igreja e ali, sustentado por eles e entoando cânticos, morre de pé como as árvores. Como se transformaram em árvores as sementes que Bento, da sua torre de Monte Cassino, espalhou por todo o mundo, para a maior glória de Deus.

    Oração conclusiva

    Ó Deus, que ornastes São Bento com o espírito de todos os justos e lhe destes por companheira sua irmã Santa Escolástica, dai-nos, por intercessão e exemplo de ambos, galgar aqui na terra e escada da humildade, para chegar a vós pela escada da glória. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

  • HINO A SÃO BENTO (clique para abrir)

    Dom Marcos Barbosa
    Quando Roma ia ruindo e tombava o mundo velho,
    trouxe Bento aos novos povos o fermento do Evangelho.
    Ensinando a Paz do Cristo e dos campos a cultura,
    levantou da Idade-Média a viril arquitetura.

    Inclina o ouvido do coração, de um pai piedoso ouve a lição:
    "Reza e trabalha (eis sua lei); sirvamos todos ao mesmo Rei".

    Vem juntar-se a pomba ao corvo, a trilhar a mesma estrada:
    Escolástica, seguida de uma branca revoada.
    As mais belas melodias vão tomando o céu de assalto;
    pelo Espírito impelida, sobe a nave para o Alto.

    Inclina o ouvido do coração, de um pai piedoso ouve a lição:
    "Reza e trabalha (eis sua lei); sirvamos todos ao mesmo Rei".

    Novo Pedro corta os mares a buscar o Novo mundo,
    e o Brasil recebe a Regra que floresce em chão fecundo.
    Sob o báculo de Bento, para o Alto caminhemos:
    se na terra semeamos, já no céu é que vivemos.

    Inclina o ouvido do coração, de um pai piedoso ouve a lição:
    "Reza e trabalha (eis sua lei); sirvamos todos ao mesmo Rei".